Sobremesa.

8 04 2011

“Ela estava lá dentro sozinha, preparando o jantar, depois se sentou, comeu e tomou um chá. Acho que ela comeu uma salada e tomou uma sopa.
E a solidão.
A solidão como sobremesa.
Gostei dela.”

Markus Zusak. Livro “Eu sou o mensageiro”.

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Homem morto

8 04 2011

” ‘Tu é um homem morto’, ouço aquela voz de novo,e vejo as palavras na minha cara quando entro no táxi e olho no espelho retrovisor.
Isso me faz pensar sobre minha vida, minhas realizações inexistentes e minhas habilidades gerais de incompetência.
Quando estou tirando o carro do estacionamento, penso: Um homem morto. Ele tem razão.”

Markus Zusak. Livro “Eu sou o mensageiro”.





Apostando beijos

2 01 2010

“— Cem metros — incitou-a. — Aposto que você não consegue me ganhar.
Liesel não estava disposta a engolir nada daquilo.
— Aposto que eu consigo.
— Você aposta o quê, Saumenschzinha? Tem algum dinheiro?
— É claro que não. Você tem?
— Não.
Mas Rudy teve uma idéia. Era o menino apaixonado vindo à tona.
— Se eu ganhar, eu beijo você.
Abaixou-se e começou a dobrar a bainha das calças. Liesel ficou assustada, para dizer o mínimo.
— Para que você quer me beijar? Eu estou imunda.
— Eu também.
Era claro que Rudy não via razão para um pouquinho de sujeira atrapalhar as coisas. Já fazia algum tempo desde o último banho dos dois.
Ela pensou no assunto, enquanto examinava as pernas magricelas da oposição. Eram mais ou menos iguais às suas. Não tem jeito de ele me vencer, pensou com seus botões. Balançou afirmativamente a cabeça, com ar grave. Aquilo era para valer.
— Você pode me dar um beijo, se ganhar. Mas, se eu ganhar, deixo de ser goleira no futebol.
(…)
— Se der empate, ainda ganho meu beijo?
— Nem num milhão de anos — disse Liesel, que se levantou e sacudiu um pouco de lama do capote.
— Você deixa de ser goleira.
— Dane-se a sua goleira.
Enquanto voltavam para a Rua Himmel, Rudy a advertiu:
— Um dia, Liesel, você vai morrer de vontade de me beijar.
Mas Liesel sabia.
Jurou.”

Markus Zusak. Livro “A menina que roubava livros”.





Sua pele estava vazia para o beijo.

8 12 2009

“Liesel tirou da bolsa A Sacudidora de Palavras e mostrou uma página a Rudy. Nela havia um menino com três medalhas penduradas no pescoço. — “Cabelos da cor de limões” — leu Rudy. Seus dedos tocaram as palavras. — Você falou de mim com ele? No começo, Liesel não conseguiu dizer nada. Talvez fosse a súbita turbulência do amor que sentiu por ele. Ou será que sempre o tinha amado? Era provável. Impedida como estava de falar, desejou que ele a beijasse. Quis que ele arrastasse sua mão e a puxasse para si. Não importava onde a beijasse. Na boca, no pescoço, na face. Sua pele estava vazia para o beijo, esperando. Anos antes, quando os dois haviam apostado corrida num campo lamacento, Rudy era um conjunto de ossos montado às pressas, com um riso Cristo crucificado! Sob o arvoredo, nessa tarde, era um doador de pão e Ursinhos de pelúcia. Um tríplice campeão de atletismo da Juventude Hitlerista. Era seu melhor amigo. E estava a um mês de sua morte. — É claro que falei de você com ele — disse Liesel. Estava se despedindo, e nem sabia.”

Markus Zusak. Livro “A menina que roubava livros”.





Recebeu os socos como se fossem presentes.

8 12 2009

“Ela escapou das garras das palavras de Rudy e ignorou as pessoas ao lado que a observavam. Quase todas estavam mudas. Estátuas com o coração batendo. Talvez espectadores das etapas finais de uma maratona. Liesel tornou a gritar e não foi ouvida. Tinha o cabelo nos olhos. — Por favor, Max!
Depois de uns trinta metros, talvez, no exato momento em que um soldado se virava para olhar, a menina foi derrubada. As mãos fecharam-se sobre ela por trás, feito pinças, e o menino da casa ao lado jogou-a no chão. Fincou-lhe os joelhos na rua, à força, e suportou o castigo. Recebeu os socos como se fossem presentes. As mãos e cotovelos ossudos da menina foram acolhidos sem nada além de pequenos gemidos. Rudy acumulou os borrifos ruidosos e desajeitados de saliva e lágrimas, como se fossem um afago encantador em seu rosto, e, o que é mais importante, conseguiu segurá-la no chão. Na Rua Munique, um menino e uma menina se entrelaçaram. Ficaram incomodamente retorcidos no chão. Juntos, viram os seres humanos desaparecerem. Viram-nos dissolver-se feito pastilhas móveis no ar úmido.”

Markus Zusak. Livro “A menina que roubava livros”.





As palavras

8 12 2009

 “Por ora, Rudy e Liesel caminharam para a Rua Himmel embaixo de chuva. Ele era o maluco que se pintara de preto e derrotara o mundo inteiro. Ela era a roubadora de livros que não tinha palavras. Mas, acredite, as palavras estavam a caminho e, quando chegassem, Liesel as seguraria nas mãos feito nuvens, e as torceria feito chuva.”

Markus Zusak.Livro”A menina que roubava livros”.





O homem + veloz da Terra.

8 12 2009

“Era 1936. A Olimpíada. Os jogos de Hitler. Jesse Owens acabara de completar o revezamento 4 X 100 e conquistara sua quarta medalha de ouro. A história de que ele era subumano, por ser negro, e da recusa de Hitler a lhe apertar a mão foi alardeada pelo mundo afora. Até os alemães mais racistas ficaram admirados com os esforços de Owens, e a notícia de sua proeza vazou pelas brechas. Ninguém ficou mais impressionado do que Rudy Steiner. Todos os seus familiares estavam amontoados na sala da família quando ele se esgueirou para a cozinha. Tirou um pouco de carvão do fogão e segurou as pedras nas mãozinhas miúdas. “É agora.” Veio o sorriso. Ele estava pronto. Esfregou bem o carvão no corpo, numa camada espessa, até ficar coberto de preto. Até no cabelo deu uma esfregada. Na janela, o menino deu um sorriso quase maníaco para seu reflexo e, de short e camiseta, surrupiou silenciosamente a bicicleta do irmão mais velho e saiu pedalando pela rua, em direção ao Oval Hubert. Escondera num dos bolsos uns pedaços extras de carvão, para o caso de parte dele sair, mais tarde. Na cabeça de Liesel, a Lua estava costurada no céu naquela noite. Com nuvens pespontadas em volta dela. A bicicleta enferrujada parou com um tranco na cerca do Oval Hubert, que Rudy escalou. Desceu do outro lado e foi saltitando, desajeitado, até o começo dos cem metros. Com entusiasmo, fez uma série de alongamentos pavorosos. Cavou buracos para a partida na terra. A espera de seu momento, andou de um lado para outro, reunindo a concentração sob o céu de trevas, com a Lua e as nuvens vigiando, tensas. — Owens está com pinta de vencedor — começou a comentar. — Esta talvez seja sua maior vitória em todos os tempos… Apertou as mãos imaginárias dos outros atletas e lhes desejou boa sorte, muito embora soubesse. Eles não tinham a menor chance. O juiz da largada fez sinal para que os atletas avançassem. Uma multidão materializou-se em cada centímetro quadrado da circunferência do Oval Hubert. Todos gritavam uma coisa só. Entoavam o nome de Rudy Steiner — e seu nome era Jesse Owens. Calaram-se todos. Os pés descalços do menino agarraram o chão. Ele podia sentir a terra grudada entre os dedos. Ao comando do juiz de largada, assumiu a posição — e a pistola abriu um buraco na noite. No primeiro terço da corrida, foi tudo bastante equilibrado, mas era só uma questão de tempo para que o Owens encarvoado se livrasse e ampliasse a vantagem. — Owens na frente —gritou a voz esganiçada do menino, enquanto ele corria pela pista deserta, diretamente em direção aos aplausos retumbantes da glória olímpica. Chegou até a sentir a fita romper-se em duas em seu peito, ao atravessá-la em primeiro lugar. O homem mais veloz da Terra.”

Markus Zusak. Livro “A menina que roubava livros”.