Esperando um acontecimento…

17 12 2009

“No fundo da alma, todavia, esperava um acontecimento. Como os marinheiros angustiados, lançava sobre a solidão de sua vida olhos desesperados, procurando ao longe alguma vela branca nas brumas do horizonte. Não sabia qual seria aquele acaso, o vento que o empurraria até ela, para que margens ele a levaria, se seria uma chalupa ou um navio de três pontes, carregado de angústias ou cheio de felicidade até as escotilhas. Mas, cada manhã, ao acordar, esperava-o para aquele mesmo dia e escutava todos os ruídos, levantava-se sobressaltada, espantava-se por ele não chegar; depois, ao anoitecer, cada vez mais triste, desejava já estar no dia seguinte”.

Gustave Flaubert. Livro “Madame Bovary”.

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Repetição da mesma vida…

17 12 2009

“León estava cansado de amar sem resultado; além disso, começava a sentir o abatimento causado pela repetição da mesma vida, quando nenhum interesse a dirige e nenhuma esperança a anima. Estava tão entediado com Yonville e com os yonvillenses que a vista de certas pessoas, de certas casas o irritava a ponto de não poder aguentar mais; e o farmacêutico, por mais bonachão que fosse, se lhe tornava completamente insuportável. Todavia, a perspectiva de uma situação nova assustava-o tanto quanto o seduzia.”

Gustave Flaubert. Livro “Madame Bovary”.





Os outros.

1 12 2009

“Amanheceu, ela olhou as janelas do castelo, longamente, procurando adivinhar quais eram os quartos de todos aqueles que observara na véspera. Teria desejado conhecer suas existências, penetrá-las, confundir-se nelas.”

Gustave Flaubert. Livro “Madame Bovary”.





Risadas de cólera.

30 11 2009

“Ela apoiara-se no vão da mansarda e relia a carta com risadas de cólera. Porém, mais fixava nela sua atenção, mais suas idéias se confundiam. Ela o revia, ouvia-o, rodeava-o com seus braços; e as batidas de seu coração, que a atingiam sob o peito como grandes marradas, aceleravam-se uma depois da outra, a intervalos regulares. Lançava olhares ao redor de si desejando que a terra desabasse. Por que não acabar com tudo? Sim, quem a retinha? Era livre. E deu um passo à frente, olhou as lajes dizendo a si mesma:
_Vamos! Vamos!
O raio luminoso que subia a rua, verticalmente, puxava para o abismo o peso de seu corpo. Parecia-lhe que o solo da praça oscilante se elevava ao longo das paredes e que o assoalho se inclinava para a estremidade, quase suspensa, rodeada por um grande espaço. O azul do céu a invadia, o ar circulava em sua cabeça vazia, bastava-lhe ceder, deixar-se levar; e o ronco do torno não cessava, como uma voz furiosa que a estivesse chamando.”

Gustave Flaubert. Livro “Madame Bovary”.





Como se…

30 11 2009

“Não era a primeira vez que viam árvores, céu azul, relva, que ouviam a água correr e a brisa soprar na folhagem; mas sem dúvida nunca haviam admirado tudo aquilo como se a natureza não tivesse existido antes ou como se ela só tivesse começado a ser bela a partir da satisfação de seus desejos.”

Gustave Flaubert. Livro “Madame Bovary”.





Destroços de um poeta

30 11 2009

“León enfim jurara que não mais veria Emma; e reprovava-se por não ter mantido a palavra, considerando todas as dificuldades e as recriminações que aquela mulher ainda poderia trazer-lhe, sem contar os gracejos de seus colegas que trocavam mexericos pela manhã, ao redor da estufa. Aliás, ele ia tornar-se primeiro escrevente: era o momento de ser sério. Assim, renunciava à flauta, aos sentimentos exaltados, à imaginação_pois todo burguês, na exaltação da juventude, julgou-se pelo menos por um dia, por um minuto, capaz de imensas paixões, de altos empreendimentos . O mais medíocre libertino sonhou com amantes; cada notário traz em si os destroços de um poeta.”

Gustave Flaubert. Livro “Madame Bovary”.





Numa única palavra.

30 11 2009

“_Porque eu a amei muito!
E, felicitando-se por ter transposto a dificuldade, León, com o canto dos olhos, espiou sua fisionomia.
Foi como o céu quando uma ventania afasta as nuvens. A carga de pensamentos sombrios que os entristecia preceu retirar-se de seus olhos azuis; todo o seu rosto resplandeceu.
Ele esperava. Enfim, ela respondeu:
_Eu sempre desconfiei…
Então, contaram-se mutuamente os pequenos acontecimentos daquela existência longínqua cujos prazeres e melancolias acabavam de resumir numa única palavra.”

Gustave Flaubert. Livro “Madame Bovary”.