A loucura é patrimônio universal da humanidade

19 06 2011

“Estamos tão habituados a ver um homem todo curvado ao peso dos anos e que já não enxerga a terra em que está para descer, a vê-lo, repito, casar-se com uma mocinha sem dote, e casar-se, certamente, mais para o de outrem do que para o próprio uso, que isso se torna quase um motivo de louvor. Eis, porém, um quadro ainda mais divertido: aquelas velhas apaixonadas, aqueles cadáveres semivivos que parecem ter saído do Érebo e já estão fedendo à carniça, ainda sentem arder o coração. Lascivas como cadelas no cio, só respiram uma porca sensualidaden e dizem descaradamente que sem volúpia a vida não vale nada. Essas velhas cabras ainda fazem o amor e, quando encontram algum Faão, costumam remunerar generosamente a repugnância que causam. Então, mais do que nunca, se esmeram na pintura do rosto, passam a vida diante do espelho, arrancam fios brancos de barba, ostentam dois seios flácidos e enrugados, cantam com voz rouquenha e hesitante para despertar a lânguida concupiscência, bebem à grande, intrometem-se nas danças das moças, escrevem cartas amorosas, — eis os meios que essas velhas raposas empregam para dar coragem aos seus custosos campeões. Enquanto isso, a sociedade exclama: — Que velhas malucas! Que velhas malucas! — Mas, se a sociedade tem razão, elas se riem e, imersas nos prazeres, aproveitam a felicidade que lhes proporciono. Eu desejaria que esses censores indiscretos soubessem dizer-me o que será mais estúpido: viver alegre e satisfeito, ou eternamente desesperado até se enforcar com uma corda. Poderão dizer-me que é uma verdadeira infâmia a vida desses velhos e dessas velhas. Não o nego; mas, que importa isso aos meus loucos? Ou são inteiramente insensíveis à desonra, ou então, quando a sentem, sufocam facilmente o remorso. Os meus bons e fiéis súditos têm uma filosofia especial, que lhes faz distinguir muito bem os males imaginários dos males reais. Cai-vos uma pedra na cabeça? Oh! isso, sim, é na realidade um mal! Mas, a desonra, a infâmia, as censuras, as maldições só nos fazem mal quando queremos sentir: desde que não pensemos nisso, deixam de ser um mal. Que mal pode fazer o que murmura a sociedade, quando é certo que intimamente vos aplaudis? Ora, somente eu tenho a virtude de sublimar os homens a esse alto grau de perfeição, e é esse um dos meus maiores predicados. Parece-me, contudo, ouvir alguns filósofos dizerem que uma das maiores desgraças para um homem consiste em ficar louco, em viver no erro, na ilusão e na ignorância. Oh! como estão redondamente enganados! Respondo-lhes, ao contrário, que é justamente nisso que consiste ser homem. Confesso-vos que não sei explicar como podem tratar de infelizes os meus loucos, sendo a loucura, como é, patrimônio universal da humanidade, e quando todos os mortais nascem, educam-se e se conformam com ela. Parece-me bastante ridículo lastimar um ser que se acha no seu estado normal.”

Livro “Elogio da loucura”. Erasmo de Rotterdam.


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