Paralisia lenta e furtiva

12 04 2010

O asco que morava em mim estava atingindo o seu mais alto nível, sentia que a vida me empurrava e me arrastava para fora. Furioso corri pela cidade em brumas, tudo me parecendo cheirar a terra e a fossa. Não! em meu enterro não haveria nenhum daqueles pássaros da morte, com suas sotainas e seus murmúrios piedosos! Ah! para qualquer sítio que olhasse, para qualquer parte que dirigisse o pensamento, em lugar algum me esperava uma alegria, em nenhuma parte havia um chamado para mim, nem sentia qualquer atrativo, tudo cheirava a decomposição e a apodrecido conformismo, tudo era velho, murcho, triste, balofo e esgotado. Meu Deus! como era possível tal coisa? Que havia sido de mim, que tivera as asas da juventude e da poesia, o amigo das musas, o viajante do mundo, o ardente idealista? Como me sobreviera uma paralisia tão lenta e furtiva, esse ódio contra mim mesmo e contra todos, essa obstrução de todo sentimento, essa profunda e perniciosa indolência, esse imundo inferno de saciedade e coração vazio?”

Hermann Hesse. Livro “O lobo da estepe”.


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