Sem fala.

3 01 2010

“O homem voltou. Mas dessa vez não desejava comprar nada. Ficou parado olhando para ela, o rosto comprido e finamente  esculpido, sorridente, os gestos elegantes transformando o ato de acender um cigarro em um ritual, e disse: — Desta vez eu voltei para ver você. O coração de Mathilde bateu tão depressa que ela sentiu ser aquele o momento esperado havia tantos anos. Quase ficou na ponta dos pés para ouvir o resto de suas palavras. Era como se fosse a mulher luminosa sentada no camarote escuro recebendo as insólitas flores. Mas o simpático escritor grisalho disse com voz aristocrática: — Assim que vi você, meu membro ficou duro dentro das minhas calças. A crueza daquelas palavras foi como um insulto. Ela enrubesceu e o esbofeteou. A cena foi repetida diversas ocasiões. Mathilde descobriu que, quando aparecia, os homens geralmente ficavam sem fala, privados de qualquer inclinação para um namoro romântico. Palavras como aquelas eram pronunciadas assim que a viam. O efeito produzido por Mathilde era tão direto que eles eram capazes apenas de exprimir sua perturbação física. Em vez de considerar isso um tributo, ela se magoava profundamente.”

Anais Nin. Livro “Delta de Vênus”, conto Mathilde.


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