Risadas de cólera.

30 11 2009

“Ela apoiara-se no vão da mansarda e relia a carta com risadas de cólera. Porém, mais fixava nela sua atenção, mais suas idéias se confundiam. Ela o revia, ouvia-o, rodeava-o com seus braços; e as batidas de seu coração, que a atingiam sob o peito como grandes marradas, aceleravam-se uma depois da outra, a intervalos regulares. Lançava olhares ao redor de si desejando que a terra desabasse. Por que não acabar com tudo? Sim, quem a retinha? Era livre. E deu um passo à frente, olhou as lajes dizendo a si mesma:
_Vamos! Vamos!
O raio luminoso que subia a rua, verticalmente, puxava para o abismo o peso de seu corpo. Parecia-lhe que o solo da praça oscilante se elevava ao longo das paredes e que o assoalho se inclinava para a estremidade, quase suspensa, rodeada por um grande espaço. O azul do céu a invadia, o ar circulava em sua cabeça vazia, bastava-lhe ceder, deixar-se levar; e o ronco do torno não cessava, como uma voz furiosa que a estivesse chamando.”

Gustave Flaubert. Livro “Madame Bovary”.


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