Risadas de cólera.

30 11 2009

“Ela apoiara-se no vão da mansarda e relia a carta com risadas de cólera. Porém, mais fixava nela sua atenção, mais suas idéias se confundiam. Ela o revia, ouvia-o, rodeava-o com seus braços; e as batidas de seu coração, que a atingiam sob o peito como grandes marradas, aceleravam-se uma depois da outra, a intervalos regulares. Lançava olhares ao redor de si desejando que a terra desabasse. Por que não acabar com tudo? Sim, quem a retinha? Era livre. E deu um passo à frente, olhou as lajes dizendo a si mesma:
_Vamos! Vamos!
O raio luminoso que subia a rua, verticalmente, puxava para o abismo o peso de seu corpo. Parecia-lhe que o solo da praça oscilante se elevava ao longo das paredes e que o assoalho se inclinava para a estremidade, quase suspensa, rodeada por um grande espaço. O azul do céu a invadia, o ar circulava em sua cabeça vazia, bastava-lhe ceder, deixar-se levar; e o ronco do torno não cessava, como uma voz furiosa que a estivesse chamando.”

Gustave Flaubert. Livro “Madame Bovary”.

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Como se…

30 11 2009

“Não era a primeira vez que viam árvores, céu azul, relva, que ouviam a água correr e a brisa soprar na folhagem; mas sem dúvida nunca haviam admirado tudo aquilo como se a natureza não tivesse existido antes ou como se ela só tivesse começado a ser bela a partir da satisfação de seus desejos.”

Gustave Flaubert. Livro “Madame Bovary”.





Destroços de um poeta

30 11 2009

“León enfim jurara que não mais veria Emma; e reprovava-se por não ter mantido a palavra, considerando todas as dificuldades e as recriminações que aquela mulher ainda poderia trazer-lhe, sem contar os gracejos de seus colegas que trocavam mexericos pela manhã, ao redor da estufa. Aliás, ele ia tornar-se primeiro escrevente: era o momento de ser sério. Assim, renunciava à flauta, aos sentimentos exaltados, à imaginação_pois todo burguês, na exaltação da juventude, julgou-se pelo menos por um dia, por um minuto, capaz de imensas paixões, de altos empreendimentos . O mais medíocre libertino sonhou com amantes; cada notário traz em si os destroços de um poeta.”

Gustave Flaubert. Livro “Madame Bovary”.





Numa única palavra.

30 11 2009

“_Porque eu a amei muito!
E, felicitando-se por ter transposto a dificuldade, León, com o canto dos olhos, espiou sua fisionomia.
Foi como o céu quando uma ventania afasta as nuvens. A carga de pensamentos sombrios que os entristecia preceu retirar-se de seus olhos azuis; todo o seu rosto resplandeceu.
Ele esperava. Enfim, ela respondeu:
_Eu sempre desconfiei…
Então, contaram-se mutuamente os pequenos acontecimentos daquela existência longínqua cujos prazeres e melancolias acabavam de resumir numa única palavra.”

Gustave Flaubert. Livro “Madame Bovary”.





Selvagem, selvagem, selvagem.

30 11 2009

“Que necessidade profunda dele. Só quando estou em seus braços as coisas parecem direitas. Depois de uma hora com ele, pude continuar com o meu dia, fazendo coisas que não quero fazer, vendo pessoas que não me interessam.
Um quarto de hotel para mim, tem a implicação de voluptuosidade, furtiva, fugaz. Talvez o fato de não ver Henry tenha aumentado minha fome. Eu me masturbo frequentemente, com luxúria, sem remorso ou repugnância. Pela primeira vez sei o que é comer. Ganhei 2kg. Fico desesperadamente faminta, e a comida que como me dá um prazer duradouro. Nunca comi dessa maneira profunda e carnal. Só tenho três desejos agora, comer, dormir e foder. Os cabarés me excitam. Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar-me em corpos, beber um Benedictine ardente. Belas mulheres e homens atraentes provocam desejos em mim. Quero dançar. Quero drogas. Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas. Nunca olho para pessoas inocentes. Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela. Henry não me dá tudo isso. Eu despertei o seu amor. Ele sabe foder como ninguém, mas eu quero mais do que isso. Eu vou para o inferno, para o inferno, para o inferno. Selvagem, selvagem, selvagem.”

Anais Nin. Livro “Henry e June”.





Truque da literatura

30 11 2009

“Em outra noite conversávamos sobre o truque da literatura em eliminar o supérfulo, de forma que nós recebemos uma dose concentrada de vida. Eu quase disse com indignação:
_ É uma ilusão e causa de muita decepção. A pessoa lê livros e espera que a vida seja assim, cheia de interesse e intensidade. E é claro que não é assim. Existem tantos momentos monótonos no interim, e eles, também, são naturais.”

 
Anais Nin. Livro “Henry e June.”





Insuficiente

30 11 2009

“Rodolphe ouvira tantas vezes dizer tais coisas que elas nada mais tinham de original para ele. Emma assemelhava-se a todas as suas amantes; e o encanto da novidade, caindo pouco a pouco como uma veste, deixava ver a nu a eterna monotonia da paixão que sempre tem as mesmas formas e a mesma linguagem. Aquele homem tão experiente não distinguia mais a diferença dos sentimentos sob a igualdade das expressões. Porque lábios libertinos ou venais lhe haviam murmurado frases semelhantes, ele mal acreditava em sua candura; era preciso, pensava, descontar suas palavras exageradas, escondendo as afeições medíocres: como se a plenitude da alma não transbordasse algumas vezes nas metáforas mais vazias, já que ninguém pode algum dia exprimir exatamente suas necessidades ou seus conceitos, nem suas dores e já que a palavra humana é como um caldeirão rachado, no qual batemos melodias próprias para fazer dançar os ursos quando desejaríamos esternecer as estrelas.”

Gustave Flaubert. Livro “Madame Bovary”.